Ela já não sabe mais pra onde olhar. Pra qualquer lugar que volte seu pensamento, ela não vê saída.
Acorda e o primeiro pensamento é esse. Corre o dia todo, mas não perde o pensamento.
Procura problemas no trabalho, somente para ter que solucioná-los e fugir do sentimento que a persegue.
Alguém esqueceu de ensinar para essa menina que a vida era assim? Que as angústias existem, e que anjos não se materializam para resolver tudo pra gente?
Não, não a ensinaram. Aliás, não ensinaram muita coisa à ela. Acredita em anjos, em gnomos, coelhinho da Páscoa, em flores no dia dos namorados, em cachorrinhos verdes...e em amor.
Seu coração vive em função disso, de sentimentos. De amor, de prazer, de carinho. E quando tudo isso se faz ausente, inúmeros outros sentimentos tomam conta daquele coração quase infantil. Aflição, angústia, tristeza.
Digo quase infantil porque é assim que o mundo a vê. E talvez seja assim que ela mesma se mostra, inocente, ingênua, beirando a tolice.
Tola, sim. Mas não porque se faça assim, ou porque queira. Mas tola de teimosa, porque teima em acreditar em valores, em coisas, que já não vemos e que, muitas vezes nos perguntamos se algum dia existiu.
Apesar de toda essa forma até um pouco pejorativa de ver, vê-la me deixa feliz. Ela me deixa feliz.
Ver a vida como ela vê, sentir o vento como ela sente, tocar a vida como se fosse um instrumento precisando ser afinado constantemente, de forma suave. Apesar de, às vezes, esse instrumento se mostrar meio enferrujado e necessitado de atitudes mais drásticas.
Mas ela não pensa assim. A vida insiste em mostrar lados negros, pessoas cinzas, dias nublados, e ela sofre. Chora, se descabela, como hoje. Sente mais do que a maioria das pessoas sentiria. A intensidade com que ela sente os mais estapafúrdios sentimentos a faz sofrer em demasia.
Mas mesmo sofrendo assim, ela sorri. E mais que isso, ela ri. Gargalha. Das pessoas, da vida, das piadas de humor negro que pregam todos os dias. E ela nega.
Nega toda e qualquer forma de amargura. Ela simplesmente se recusa a ficar amarga e dura. E talvez por essa insistência em se manter macia, ela apanha.
Mas como toda boa mulher-borracha, ela absorve o impacto, sofre escoriações, mas devolve com mais força a todos chutes, socos e pontapés que recebe.
Essa menina canta quando ninguém está por perto, mas toma todo o cuidado para não desafinar e treina com toda paciência os timbres que mais se adequam à sua voz.
Essa menina dança quando lava a louça. Ela ri das piadas do rádio. Ela finje que fala ao celular só pra falar sozinha dentro do carro.
Ela chora quando escuta uma história triste. E é capaz de rir em centésimos de segundos.
Ela conversava com todos os seus bichos de pelúcia quando pequena. E embora tenha crescido, ainda carrega um exemplar dentro do carro pois não gosta de andar sozinha.
Faz amigos onde vai. E mesmo assim se deixa abater com bobagens cotidianas.
E assim ela está. Aflita, com esse pensamento corroendo seu coração desde os primeiros raios de sol até a hora em que deita sua cabeleira farta no travesseiro e abraça seu urso de pelúcia.
Aflita. Por quê?
Ela não me conta, não se abre comigo.
Às vezes desconfio que ela não me conhece...
Assinar:
Postar comentários (Atom)
Nenhum comentário:
Postar um comentário