22 julho 2009

Obrigada, Vi...


Ele nasceu aqui. Era uma pequena bolinha preta e peluda, fofo como ele só.
Aquela carinha meio amassada dos filhotes quando nascem me fazia quase chorar de alegria.

E o cheirinho da boquinha? Ah, quem não conhece o que estou falando não sabe o quanto é gostoso aquele bafinho de leite do pequeninos.

A mãe parecia uma leitoa, de tão gorda e forte. Tinha bastante leite, era muito carinhosa com todos, mas ainda era uma criançona. Gostava de brincar.

Os dias com esses filhotes eram felizes. Chorinhos, mamadas, grunhidos. O abrir dos olhinhos depois de 10 dias, a primeira papinha, os dentinhos, as brincadeiras entre irmãos. Tudo o que eles faziam era fofo.

Sou muito suspeita para descrever filhotes porque sou uma apaixonada por eles. Amo, amo, amo tudo o que diz respeito à filhotes! Não existem pessoas loucas por bebês? Pois bem, eu sou louca por filhotes!
Filhotes me fazem sentir viva, me fazem ver e entender cada vez mais um pouquinho o milagre da vida.

Veio o primeiro probleminha de saúde, uma parvovirose que não estava programada.
Toda a ninhada ficou muito doente, mas cada um já estava com donos diferentes. Os meus também pegaram e ficaram internados na clínica onde eu estagiava.

Ficamos com 2 filhotes, e ambos ficaram sob meus cuidados, nessa clínica. Eu cuidava, ficava com eles, quase já nem estagiava mais. Trabalhava para custear o tratamento deles.

Mas Dr. Rogério, um dos meus mestres, sempre foi uma pessoa boa, nunca me cobrou nada. O que acho um absurdo, pois sei o quanto ele trabalha. Mas sabe como são as pessoas boas, não é?

Meus bebês ficaram bem. Saíram de lá, voltaram para casa, saltitantes. Ganharam os nomes de Viola e Rincón (sem preconceitos, por favor!).
Os dois viveram juntos por muitos anos. Ficaram aqui em casa, depois foram para o sítio, eram nossos guardas de confiança. Rincón tinha uma carinha mais preta, um olhar mais bravo, mas quando abanava aquele cotoco de rabo, já não restava dúvidas de que era um bom cão.

Já Viola era um exímio exemplar da raça. Cabeçudo, forte, de estrutura bem formada. Ambos eram assim, mas Viola sempre foi meu preferido, pois tinha um olhar firme, mas ao mesmo tempo, muito doce. Gostava da vida.

Um dia foram separados. Rincón foi para a casa de um amigo do meu pai que gostava muito dele. E Vi ficou.

Ficava preso na corrente, para guardar a represa, ou a casa, pois não podíamos deixá-lo solto, já que cães de guarda não combinam muito com ovelhas em sistema extensivo de criação.

Vê-lo preso me cortava o coração, mas ele sempre esteve ali, com aquela carinha boa, doce, e mesmo com todo esse tamanho, ele nunca esquecia que era no meu colo que dormia quando era filhote. Teimava em subir sobre mim diversas vezes, e eu aguentava. Não gostava de contrariar meu "filho".

Apesar de todo o peso eu não ligava, deixava ele subir no meu colo. Eu me sentava no chão e deixava ele deitar sobre minhas pernas. Ele fazia aquela festa, lambia meu rosto e deitava sua cabeça sobre mim, como um imenso filhote. E isso me fazia feliz.
O tempo passou, como passa para todo mundo. Quando Vi nasceu eu era apenas uma estudante de veterinária, que o via raramente pois morava fora. Não me lembro ao certo o ano, só me lembro que tinha acabado de entrar na faculdade. Deve ter sido em meados de 1997, 1998.

Quanto tempo se passou. E por negligência e ignorância, ele adoeceu. Não sabem o quanto isso me revolta, quantas brigas, quanto desgaste. Enfim, só quem está muito próximo sabe o que passei.

Meu bebê adoeceu e veio para cá, para que eu cuidasse dele. Mas já era muito tarde.
A doença avançou rapidamente e, apesar de tentar por uma semana, todos os métodos possíveis, era tarde demais.

Na noite de 20/07 como de costume, estava com ele, tentando fazê-lo beber um pouco d'água, alimentar, dando remédios e conversando, fazendo carinho. Ver aquele gigante em decúbito, tão debilitado, me fazia chorar muito.

A solução seria a que mais evito, a eutanásia. Depois de pensar muito a respeito, de chorar horrores, decidi que seria assim. Na segunda mesmo não consegui o anestésico necessário, então adiei por mais um dia e decidi conversar com Viola primeiro, explicar-lhe o que iria acontecer.

Então na segunda à noite conversamos. Ou melhor, ele só me ouviu com muita atenção, pois estava bastante cansado. Expliquei-lhe que seria melhor e nauqela noite chorei muito. Pedi que São Francisco de Assis o levasse logo, e disse também ao Vi que ele poderia ir, que eu o estava prendendo aqui e que eu prometia não ficar muito triste com a partida dele pois eu sabia que seria melhor.

Sei que muita gente está me achando louca nesse momento, mas não me importo.
Parece que realmente São Francisco estava ali, do meu lado. E parece que o Vi entendeu também tudo o que eu disse, pois exatamente no meio dessa terça-feira, ele descansou. Quando cheguei para vê-lo, estava lá, aquele corpão preto, sem vida. Ainda estava morninho, sinal de que não fazia muito tempo da sua partida. Mas até nesse momento ele foi um cão perfeito, e me poupou de tê-lo que sacrificar.
Ali chorei. Chorei muito. Tentei segurar ao máximo, mas algumas lágrimas escorreram.
Retirei meu escapulário do pescoço dele, tirei a coleira, e guardei. Rezei também nesse momento, agradecendo pelo seu descanso.
Ele foi enterrado em minha casa, pertinho de mim.

Esse texto é para homenageá-lo, eternizá-lo de alguma forma, mas é também um pedido de desculpas. Desculpas por eu ter sido egoísta, por não ter conseguido salvá-lo, por não estar ao seu lado no momento da partida, e por descumprir nosso acordo.

Vi, sempre amei você e sempre amarei. Desculpe-me por descumpri nosso trato. As lágrimas caem e a tristeza me habita, ainda que não seja o que eu te prometi. Mas obrigada por ter sido perfeito durante toda sua vida, meu eterno bebê.

Quem ama um animal de estimação, sabe como me sinto. E aos que evitam ter por não querer passar por essa dor, saibam que não existe nada mais bonito e mais sublime do que o amor que recebemos desses seres. Deixar de tê-los por medo de perdê-los é não saber sentir o amor na sua forma mais pura.



Um aloha triste. Mas um aloha. =)

Um comentário:

Sylvia Bonci disse...

chorei e nao foi pouco nao viu?
concordo com vc em todas as partes amiga....caes saoa expressao mais pura do amor....sei que é um momento dificil, sei que doi,mas sei tb que ele com certeza esta abanando o cotoquinho la em cima....todo alegre, correndo e pulando....e com certeza...todos nos, um dia, nos encontraremos....com certeza!!!
beijos