22 dezembro 2009

Quebra-Nozes...



Eu e Chris estávamos outro dia conversando sobre listas de desejo. Sabe aquelas listinhas que a gente faz mentalmente, ou no diário, no blog, em um caderninho, enfim. Sabe?

Pois é, eu sou a menina das listinhas! Tenho listinhas de tudo na minha cabeça. E devo dizer que não sou apenas uma menina de listinhas, costumo realizar esses desejos.

E falando em realizar, ontem realizei mais um. Fui assistir ao ballet Quebra-Nozes.

Enquanto eu esperava, olhava o teatro, sentamos no balcão. Ah, eu sempre quis assistir um ballet, sentada no balcão, como naqueles filmes antigos, com as mulheres bem vestidas e tal.

É, a parte das pessoas bem vestidas a gente pula, porque ninguém estava com aqueles vestidos de assistir ópera, sabe? O traje de gala era calça jeans. Tudo bem, vai. Não se pode ter tudo.

Mas mesmo assim era lindo! As luzes, as pessoas entrando, procurando o melhor lugar, as crianças ansiosas e eu ali, mais ansiosa que elas.

As luzes começam a baixar, uma voz dá as instruções habituais de qualquer espetáculo. "Por favor, desliguem seus celulares e pagers." Será que as pessoas não ouvem direito? DES-LI-GUEM! Pois é, mas o sujeito ao meu lado não compreendeu direito a palavra, e a porcaria do celular dele tocou no meio de uma cena. Ai, que raiva!

A música começa. Meus olhos já começam a se encher de lágrimas, ficam brilhantes à espera dos bailarinos.
Acho que toda menina gosta de bailarinas, né? Mesmo que não dance, mas acho que a bailarina é um símbolo de meninas. Aqueles gestos delicados, aquele sorriso plácido, aquela pontinha de pé...que coisa bonita!

Começa de fato! Ué, não tem dança? Calma, é uma peça, ballet ou não. As pessoas não entram já rodopiando. Mas a minha ansiedade me fazia pensar assim.

As bailarinas até andando são bonitas, né? No palco, elas andam com o pezinho virado, uma graça só!

Vem o primeiro rodopio. Não sei o que me emociona tanto, se a música belíssima de Tchaikovsky ou a delicadeza daquela menina-bailarina, só sei que uma lágrima cai. Os olhos brilham. Chris percebe meu gesto bem discreto, a fim de enxugar o rosto, e sorri.

E a cada cena, mais emoção. Os olhos brilham cada vez mais, os pelos do braço arrepiam. Sinto o coração transbordando.

A música clássica é para mim um verdadeiro milagre. Sem emitir uma só palavra, ela é capaz de expressar mais sentimentos do que qualquer dicionário.
É como se cada instrumento tivesse um idioma próprio, e que não precisamos estudar para entender, basta deixar que o som entre pelos ouvidos e seja canalizado até o coração.

Fim do primeiro ato. Comentários gerais. Lóóóógico que eu e Chris tínhamos que alfinetar o sujeito do celular. Mas coitado, pode ter sido só um momento de distração, e ele esqueceu de desligar. Acontece com qualquer um.
Mas falamos mesmo é sobre isso, sobre esse fascínio, e de como tudo é tão bonito ali. É como se o mundo lá fora não existisse, apenas beleza, sensibilidade, sutileza, harmonia. É como se somente coisas belas existissem no mundo. Eu moraria ali.

Começa o segundo ato. O reino dos doces. Ah, ali as crianças se reconhecem. Mesmo pequenas, mesmo leigas, mesmo que não entendam nada de música, elas se reconhecem.
Lá embaixo, na primeira fila, uma pequena se encanta tanto, que fica em pé, imitando os movimentos da bailarina. Ela realiza meu desejo, que, graças à minha maturidade infeliz e os padrões de comportamento exigidos pela minha não tão tenra idade, não posso concretizar. Uma pena.
E a cada cena, onde nós, os adultos embasbacados, aplaudimos, as crianças nos seguem, mas com mais entusiasmo. E quando todos encerram seus aplausos, ainda se ouvem aquelas palminhas pequenas batendo fora do tempo. Quero dizer, fora do nosso tempo, né? Porque elas continuam gostando, e portanto, aplaudindo.

Não me canso de dizer o quanto tudo parecia irreal, de uma beleza que não estamos acostumados, infelizmente.

Fim do ato, fim do espetáculo. Não cansamos de aplaudir. E segundo Chris, ainda foi pouco. Aplaudiríamos ali a noite toda, se eles não precisassem descansar para enfrentar a segunda sessão.

Saímos daquele lindo teatro com vontade de rodopiar e cantarolar as músicas. Sentamos em um restaurante, e ainda extasiados, comentávamos sem parar. E namoramos, romanticamente, no restaurante onde comemoramos nosso noivado. Uma noite impecável, eu diria.

Na volta para casa, dentro do carro, me peguei pensando em como uma pessoa pode gostar de funk?
Só pode ser porque ela nunca ouviu Tchaikovsky, Beethoven, Mozart, Chopin.

Não sou conhecedora de quase nada, não tenho um ouvido super crítico. Mas tenho um coração, e ele sente a música. Será possível que alguém consegue sentir alguma coisa além de náuseas quando escuta Bonde das Popozudas?

Ah, meu Deus. Cada dia mais tenho a certeza de que não nasci na época certa. Ou são lembranças das minhas vidas passadas.

Ah, que saudades dos meus vestidões de ópera...

Nenhum comentário: